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Redação05 de setembro de 20267 min de leitura

Redação do ENEM: o que cada competência mede e o que trava a sua nota

A nota mil não vem de escrever bonito, vem de cumprir cinco exigências específicas. O que cada competência avalia, como a correção funciona e quais situações zeram o texto.

A redação do ENEM é a única parte da prova em que o candidato não escolhe entre alternativas — e, por isso, a única em que ele consegue perder muito ponto sem perceber. É também a que mais se aprende com método: a correção segue uma matriz pública, com cinco competências e critérios descritos.

Quem escreve tentando "impressionar" tende a ficar na faixa dos 600. Quem escreve atendendo à matriz sobe sem precisar escrever melhor — precisa escrever conforme o que é avaliado.

Como a correção funciona

Cada redação é lida por dois corretores independentes, que atribuem de 0 a 200 pontos a cada competência. Os valores possíveis são apenas 0, 40, 80, 120, 160 e 200 — não existe nota 150 nem 175.

A nota final é a média das duas correções. Se a diferença entre elas for grande — acima de 100 pontos no total ou acima de 80 em uma única competência —, um terceiro corretor é acionado. Persistindo a divergência, o texto vai para uma banca de correção formada por professores.

Isso tem uma consequência prática que muita gente ignora: o corretor lê a sua redação em poucos minutos, procurando marcas objetivas de cada competência. Texto que exige interpretação generosa para ser entendido perde ponto, mesmo quando a ideia é boa.

Competência 1 — domínio da norma culta

Avalia ortografia, acentuação, concordância, regência, pontuação, colocação pronominal e escolha de registro.

O que separa as faixas não é a existência de erro — praticamente toda redação tem algum —, mas a quantidade e a gravidade. Desvio isolado numa estrutura sintática complexa pesa menos que erro recorrente de concordância.

O que derruba com mais frequência:

  • Marcas de oralidade: "daí", "aí", "pra", "a gente", "coisa", "muito bom".
  • Uso da primeira pessoa. A dissertação de exame pede impessoalidade: prefira "é necessário que" a "eu acho que".
  • Pontuação por respiração, principalmente vírgula separando sujeito de verbo.

Estratégia que funciona: escrever com períodos curtos e completos. Frase longa mal costurada custa mais ponto do que rende.

Competência 2 — compreender a proposta e usar repertório

Duas exigências que andam juntas.

A primeira é não fugir do recorte. Não basta escrever sobre o tema geral: o tema tem uma delimitação, e escrever ao lado dela é tangenciamento, punido com nota baixa. Se a proposta trata da "valorização dos profissionais da educação básica", um texto sobre educação em geral tangencia.

A segunda é o repertório sociocultural produtivo. Três palavras, cada uma com peso:

  • Sociocultural — vem de um campo legitimado: filosofia, sociologia, história, literatura, dados oficiais, legislação, obra artística.
  • Produtivo — precisa funcionar dentro do argumento, não aparecer como enfeite. Citar um autor e seguir adiante sem usar a ideia não conta.
  • Pertinente — tem relação real com o recorte.

O erro mais comum é a citação decorada e encaixada à força. Um dado do IBGE bem articulado ao argumento vale mais que um filósofo mencionado de passagem.

Competência 3 — projeto de texto e argumentação

É a competência que mais distingue redações medianas de boas, e a menos compreendida.

Ela avalia se existe um projeto: uma tese explícita, argumentos que a sustentam e progressão entre eles. Não avalia se você tem muitas ideias — avalia se as ideias que você tem estão organizadas em defesa de um ponto de vista.

Sinais de projeto de texto que o corretor reconhece:

  • A tese aparece na introdução, de forma identificável.
  • Cada parágrafo de desenvolvimento sustenta um argumento, anunciado logo na primeira frase.
  • A conclusão retoma a tese, em vez de apresentar assunto novo.

Sinais de ausência de projeto: parágrafos que poderiam trocar de lugar sem prejuízo, repetição da mesma ideia com outras palavras, e o texto que só revela sua posição no último parágrafo.

Competência 4 — coesão

Avalia os mecanismos que ligam as partes: conectivos entre parágrafos e dentro deles, pronomes, sinônimos, elipses.

Dois cuidados práticos:

  1. Varie os conectivos. Começar três parágrafos seguidos com "além disso" limita a nota, ainda que o texto esteja correto.
  2. Use referenciação. Retomar "a evasão escolar" como "esse fenômeno" ou "tal problema" na frase seguinte é exatamente o que a competência mede — e evita a repetição que também custa ponto na C1.

Uma lista curta e bem distribuída resolve: em primeiro lugar, ademais, por conseguinte, nesse sentido, contudo, dessa forma, portanto.

Competência 5 — proposta de intervenção

É onde se perde mais ponto por desconhecimento da regra, não por falta de ideia.

A proposta completa tem cinco elementos:

ElementoPergunta que responde
AgenteQuem vai executar?
AçãoO que será feito?
Meio/modoPor meio de quê?
FinalidadePara quê?
DetalhamentoUm dos elementos acima, explicado com especificidade

O detalhamento é o que separa 160 de 200. Não é um sexto elemento: é aprofundar um dos quatro. Explicar como a campanha seria veiculada, ou de onde viria o recurso, ou que indicador mediria o resultado.

Compare:

Vaga: "O governo deve investir mais em educação."

Completa: "Cabe ao Ministério da Educação (agente) ampliar o piso salarial docente (ação) por meio da destinação vinculada de recursos do Fundeb (meio), a fim de tornar a carreira atrativa (finalidade), condicionando os repasses ao cumprimento de metas anuais de formação continuada (detalhamento)."

A segunda não é mais bonita. É mais específica — e é isso que a competência mede.

Por fim: a proposta deve respeitar os direitos humanos. Soluções que impliquem violência, supressão de direitos ou tratamento desumano comprometem a competência.

O que zera ou reduz drasticamente

Situações previstas na correção que independem da qualidade da escrita:

  • Fuga total ao tema.
  • Não atendimento ao tipo textual: o texto precisa ser dissertativo-argumentativo. Poema, narrativa ou carta recebem zero, ainda que bem escritos.
  • Texto de até 7 linhas — considerado insuficiente.
  • Cópia dos textos motivadores sem produção própria. Trechos copiados são desconsiderados na contagem de linhas.
  • Texto em branco, ilegível, em língua estrangeira ou com parte deliberadamente desconectada do tema.

Vale lembrar o limite superior: a folha tem 30 linhas, e o que passar disso não é corrigido. O texto competitivo costuma ocupar entre 25 e 30.

Os critérios de correção são revistos de tempos em tempos — inclusive o tratamento dado a propostas que ferem direitos humanos, que mudou em edições recentes. A fonte oficial é a Cartilha do Participante publicada pelo INEP no ano da sua prova; vale ler a do seu ano antes de treinar.

A estrutura que atende à matriz

Quatro parágrafos resolvem, e essa é a distribuição que melhor dialoga com as cinco competências:

  1. Introdução (4 a 6 linhas): contextualização + tese explícita.
  2. Desenvolvimento 1 (7 a 9 linhas): primeiro argumento + repertório + fechamento do parágrafo.
  3. Desenvolvimento 2 (7 a 9 linhas): segundo argumento, de natureza diferente do primeiro.
  4. Conclusão (6 a 8 linhas): retomada da tese + proposta de intervenção com os cinco elementos.

Não é a única estrutura possível, mas é a que mais dificilmente deixa uma competência descoberta — e, sob pressão de tempo, previsibilidade vale mais que ousadia.

Como treinar de verdade

Escrever uma redação por semana rende pouco se você não souber onde perdeu ponto. O treino útil tem três etapas:

  1. Escreva no tempo real, à mão, dentro das 30 linhas.
  2. Corrija por competência, não por impressão geral: dê uma nota de 0 a 200 para cada uma, com justificativa em uma frase.
  3. Reescreva apenas o parágrafo mais fraco. Reescrever o texto inteiro consome tempo e ensina menos.

Aqui no site você pode submeter uma redação e receber a avaliação separada pelas cinco competências, com a nota de cada uma e os pontos de correção. Use como diagnóstico — o valor está em saber qual competência está travando a sua nota, porque é nela que o estudo rende mais.


Vale um aviso sobre transposição: a discursiva de concurso público é avaliada por outra régua — objetividade, domínio técnico e atendimento ao comando —, e a proposta de intervenção do ENEM costuma ser irrelevante ou até prejudicial ali. São dois gêneros diferentes treinados em separado.

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